Captação da poupança imobiliária volta ao vermelho em junho após dois meses de alta
A poupança destinada ao SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), uma das principais fontes de recursos para o financiamento habitacional no país, voltou a registrar captação líquida negativa no encerramento do primeiro semestre.
Dados divulgados nesta quarta-feira (8) pelo BC (Banco Central) mostram que as retiradas superaram os depósitos em R$ 1,39 bilhão em junho, resultado de R$ 326,66 bilhões em depósitos e R$ 328,06 bilhões em retiradas.
O revés de junho interrompe a recuperação observada nos dois meses anteriores. Em abril, a captação líquida foi positiva em R$ 498,95 milhões e, em maio, foi de R$ 2,29 bilhões.
Apesar dos números, o recuo não é visto com alarmismo pelo setor. Para o presidente da Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), Luiz França, o resultado de junho não sinaliza uma mudança estrutural de tendência. Segundo diz, apesar do saldo líquido negativo no mês, o ganho com os rendimentos garantiu que o saldo total da poupança seguisse crescendo, amortecendo o impacto imediato.
Estoque cresce apesar da saída de recursos
Embora a captação líquida tenha voltado a ficar no vermelho, o volume total de recursos do SBPE continuou avançando. O saldo passou de R$ 760,74 bilhões, em maio, para R$ 764,08 bilhões, em junho. O estoque também supera o registrado no mesmo período do ano passado, quando somava R$ 762,28 bilhões.
A evolução foi sustentada pelos rendimentos creditados aos poupadores, que totalizaram R$ 4,73 bilhões em junho e mais do que compensaram a saída líquida de recursos.
O comportamento do estoque é acompanhado de perto pelo mercado imobiliário porque ele influencia diretamente a capacidade dos bancos de conceder financiamentos habitacionais. A lógica é simples: quanto maior o volume de recursos disponível na poupança, maior tende a ser a oferta de crédito para a compra de imóveis.
Cenário menos desfavorável no 1º semestre
Apesar do desempenho de junho, o acumulado do primeiro semestre continua mostrando um cenário menos desfavorável do que o observado no mesmo período do ano passado.
Entre janeiro e junho de 2026, a retirada líquida de recursos somou R$ 30,56 bilhões. No primeiro semestre de 2025, o saldo negativo havia alcançado R$ 38,39 bilhões.
Essa maior resiliência em 2026, apesar de um cenário macroeconômico complexo, reflete o comportamento de um investidor mais conservador, segundo França, que aplicam em poupança. “Em geral, são pessoas que buscam investimentos de baixo risco e rentabilidade assegurada. Estamos em um cenário macro econômico complexo, que se agrava com a guerra entre Estados Unidos e Irã. Tudo isso faz com que haja uma migração de ativos de risco para investimentos mais seguros como a poupança”, explica.
Selic elevada e o impacto na poupança
Embora os números indiquem uma desaceleração no ritmo de saída de recursos em relação ao ano passado, eles também mostram que a recuperação da poupança imobiliária ainda enfrenta obstáculos.
Atualmente a taxa básica de juros, a Selic, está em 14,25% ao ano. Os dados mais recentes do Relatório Focus, que capta a percepção do mercado, indicam que a Selic fechará este ano em 14%. As estimativas divulgadas na última segunda-feira (6) são mais pessimistas do que as divulgadas há um mês, quando a indicação era de 13,5%.
Com a Selic em patamar elevado, investidores seguem encontrando alternativas mais rentáveis na renda fixa, o que limita uma retomada mais consistente da principal fonte de recursos para o financiamento habitacional.
Na avaliação de França, a poupança deve conseguir sustentar seu patamar atual quando avaliado o saldo total (somando rendimentos e captação). Porém, o executivo alerta que o setor não pode depender exclusivamente dessa fonte. “Precisamos de mais fontes de financiamento para sustentar o nível de crescimento do setor imobiliário”, aponta.
Para o executivo, o caminho para garantir recursos suficientes passa por medidas regulatórias e fiscais estratégicas, como a preservação do FGTS para a habitação, o direcionamento de recursos do Fundo Social do Pré-Sal e, fundamentalmente, a manutenção da isenção de Imposto de Renda para títulos como a LCI (Letra Crédito Imobiliário) e as LIG (Letra Imobiliária Garantida), CRI (Certificado Recebíveis Imobiliário) e FII (Fundo de Investimento Imobiliário). Deste modo, segundo França, haverá garantia de que esses instrumentos continuem atraentes para o investidor.
